Sobre a filosofia e as provas da existência de Deus
Última atualização em Sáb, 01 de Agosto de 2009 22:09 Seg, 17 de Setembro de 2007 22:04
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Sobre a filosofia e as provas da existência de Deus Por Bjfranco (primeira parte)
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Onde o escriba apresenta através de dados, debates, divagações doentias e duvidosas (e café, muito café), as provas da existência de Deus consagradas pela filosofia, analisa a retomada deste tema na pós-modernidade e assiste (de camarote, onde entrou com um ingresso falsificado) o pau cantar entre deístas e ateístas, enquanto bebe (por recomendação médica) um refrigerante dietético.
Lingüiça, enchendo
Um tema bastante discutido pela filosofia, a prova da existência de Deus, está em evidencia novamente. Ao longo do tempo, vários filósofos meditaram sobre o problema e produziram soluções tão múltiplas quanto divergentes. Quando começou esta questão? Quais foram as pretensas soluções e críticas apresentadas ao longo do tempo? O que causou seu ressurgimento nos tempos atuais?
Valendo!
Fixemos um ponto originário: a construção da filosofia ocidental.
A mitologia, grega por óbvio, nasce como produtora de respostas para os fenômenos da natureza, (o mundo exterior) e para as perguntas comuns ao homem que reflete (o mundo interior): quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Qual o sentido da vida? O avanço do pensar filosófico produzirá uma outra questão melhormente elaborada e sintetizadora das anteriores: Por que existem coisas e não antes o nada? Afinal, as coisas existem desde sempre, foram criadas ou estão sendo criadas continua e infinitamente? Uma série de questões resolvida pelos gregos com a singela afirmação de que a natureza (physis) é a origem de tudo. E como surgiu a physis? A physis não surgiu, ela sempre existiu e sempre existirá. Esta questão grega da origem das coisas, solucionada inicialmente pelo mito e depois pela razão, será respondida pelo cristianismo com a figura do Deus criador de tudo. E como surgiu o Deus criador? O Deus criador não surgiu, ele sempre existiu e sempre existirá.
Não sei não, acho que já ouvimos esta resposta antes..
Na transição entre o paganismo e o incipiente cristianismo (marcada pela necessidade vital de fundamentar a religião que nasce) temos de um lado o paganismo politeísta, ainda convivendo com a filosofia que teima em encontrar uma explicação racional para a origem das coisas, renegando as causas mitológicas. De outro lado, temos o nascente cristianismo com seu Deus único, cristão e criador de tudo.
Possível solução para um grande problema: um filósofo pagão que provasse racionalmente a (pelo menos) possibilidade da existência de um Deus com as características cristãs viria bem a calhar. E a nascente Igreja descobre Aristóteles...
Santo Aristóteles, rogai por nós
Reduzindo ao máximo é (quase) assim. Algo existe e está em movimento, eterno, contínuo e circular. Este algo transmite movimento às demais coisas, para que exista algo que movimenta e que é movimentado, deve existir algo que move sem se mover. É o primeiro motor que movimenta tudo o mais. Diga-se a favor do Aristocles (seu nome verdadeiro) que, para ele o mundo sempre existiu (physis, lembram?).
Foi fazendo um tunning no pensamento do estagirita, apertando daqui e cortando dali, que “(o) filósofo querido do Vaticano, (...) permite esse magnífico passe de mágica.”.
Mais um pouco o estagirita seria batizado postumamente o que poderia render uma vaga na hagiologia. (Santo Aristóteles rogai por nós.) Tendo caído nas boas graças da igreja, Aristóteles passa a ser cognominado “O filósofo”, os seus livros que ninguém sabia onde colocar (compilados como “A metafísica” – os livros que estão depois da física) a tradição os renomeia para “O livro”. O Livro do Filósofo: “A Metafísica”, de Aristóteles.
Materialização do princípio da autoridade, “O livro” ao lado da Bíblia irá fundamentar os debates teológicos. A sombra aristotélica atravessará incólume a patrística, o medievo, etc. Só começará a receber abalos no início da moderna, mas o edifício da lógica formal está habitado até hoje, com muitas rachaduras, algumas infiltrações e uma ordem de despejo.
A prova ontológica de Anselmo
Provocado por um desafio: “é possível provar a existência de Deus, utilizando apenas a razão, sem o apelo das Sagradas Escrituras?”, o beneditino Anselmo (um dos criadores da filosofia escolástica) com raízes assentadas no Aristóteles já devidamente cristianizado apresenta duas provas da existência de Deus.
Simplifiquemos as duas provas apresentadas no Monológio.
Da primeira prova.
Existem qualidades nas coisas e pessoas: força, beleza, justiça, bondade etc. Mas estão distribuídas em grau menor ou maior se comparadas entre si. Todavia podemos deduzir que existe um grau absoluto de qualidade que (por ser absoluto) não teria como ser comparado com nada. Seria a absoluta força, beleza, justiça, bondade, em suma o bem absoluto (Deus), a base referencial de todas as qualidades existentes.
Da segunda prova
As coisas que existem no mundo existem em si e existem por outras coisas. Ficou confuso?
Exemplo aqui...
Um pedaço de mármore existe “em si”, entenda-se é um produto da natureza, ou, no jargão de Anselmo: natureza suprema. Ao esculpir um cavalo no tal pedaço de mármore, o escultor passa a ser a “por outra coisa”. O cavalo de mármore agora existe em si (a matéria mármore – causa material no jargão aristotélico) e por outra coisa (o escultor – causa eficiente na gíria do estagirita). O argumento de Anselmo é que a causa incausada é a natureza suprema, é por causa dela que todas as coisas são o que são, enquanto as coisas existem por outras coisas, a natureza suprema só existe por ela mesma. Ela causa todas as coisas e não é causada por nenhuma. Daí para frente Anselmo irá demonstrar as qualidades da natureza suprema (Deus), os interessados poderão conferir todas no opúsculo (menos de 100 páginas na versão tupiniquim).
Fácil, não? Mas nem todos aceitaram tais provas, principalmente o autor delas, que achou por bem produzir uma versão 2.0 das duas provas anteriores. Esta prova passará ao acervo escolástico como a “prova ontológica”. O epíteto é de Kant.
Reduzindo a versão apresentada no Proslógio..
Se considerarmos duas coisas: uma existente e outra imaginada, qual é a melhor? A coisa que existe, pois o existente é melhor do que o imaginado. E por que é melhor? Ora, porque existe. Qual a coisa mais perfeita que você pode imaginar? Deus. Mas Deus existe apenas na sua imaginação? Não, pois se eu não consigo pensar em nada melhor do que Deus, logo, Deus deve necessariamente existir, pois a perfeição inclui a existência. Se for perfeito deve (necessariamente) existir.
(continua no próximo artigo)



