Terça, Fevereiro 09, 2010
   
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A Catedral dos Pinheirais

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A CATEDRAL DOS PINHEIRAIS

por

B. J. Franco Fonseca


Dois homens trabalham em um muro, alguém pára, observa e pergunta:

 -”O que vocês estão fazendo?”

PRIMEIRO PEDREIRO: (Colocando um tijolo no muro)

- “Eu estou fazendo um muro.”

SEGUNDO PEDREIRO: (Colocando um tijolo no muro)

 - “Eu estou construindo uma catedral...”.


Quem? Eu? Está falando comigo? Desculpe, não ouvi, é que eu estava muito ocupado.. Sabe como é, não tenho muito tempo e preciso adiantar o serviço. Fazendo o quê? Uma catedral, ora. Não está dando prá perceber, concordo, mas é que ainda não está pronta. Quando ficará pronta? Não sei, mas isto não tem importância, estou aqui há quarenta e cinco anos e nunca me disseram quando a obra vai acabar, acho que ninguém aqui sabe.. Como não acredita? É muito tempo para fazer uma catedral? O senhor não viu nada ainda. Os mais antigos dizem que teve aqui um mestre de obra, que vivia falando: ”Tempo é criança brincando”. O nome dele? Heráclito, Ah, o senhor não concorda, gostaria de conversar com ele? Infelizmente ele já não está mais aqui, parece que foi transferido para outra construção. O engenheiro responsável pela obra? Não sei quem é, nunca vi. Nem ele nem as plantas da catedral. Tá vendo aquele pessoal ali? são eles que de vez em quando falam alguma coisa e a gente vai fazendo. Se são engenheiros? não, acho que não, aqui nesta construção eles são chamados de mestres...eles falam de um jeito estranho, aquele ali é o meu chefe. Foi ele quem me colocou aqui assentando tijolos, parece que eu tenho de, como foi mesmo que ele disse? “filtrar as pretensões..” é isto. Gente boa, o meu chefe: Mestre Deleuze. Ajudaria muito se ele não falasse tão difícil. Acho que eu já teria terminado a minha parte neste muro e estaria trabalhando na entrada principal.
               O que tem a entrada principal de tão importante? Aí tá certo, o senhor não sabe, mas quem trabalha bem e termina sua parte no muro pode ir trabalhar na entrada principal, é uma espécie de promoção, tá sabendo? Se lá o salário é maior? Ih... o senhor tá por fora mesmo.. aqui ninguém recebe salário nenhum...
             Maluco ? Quem ? Eu ? Ué, só porque estou trabalhando aqui há quarenta e cinco anos, assentando tijolos e sem receber nada, eu sou maluco?


                Sente só, prá começar eu não nasci assentando tijolos, comecei como servente, ali na preparação, tempo difícil, tinha que pegar o tal do Senso Comum e ficar virando ele, pra lá e pra cá, dia e noite até tirar dele a Idéia Pura, quem conseguia tirar a Idéia Pura, era promovido logo e passava a ser chamado de discípulo. Um erro que todo servente comete é achar que quanto mais Senso Comum ele tiver, mais rápido, ele vai conseguir tirar a Idéia Pura e ser promovido. Isto é a maior furada, os mais antigos aqui já sacaram que quanto mais Senso Comum você tiver menos Idéia Pura você consegue tirar dali. E o que é pior: a gente até avisa os novatos mais eles não ouvem a gente, principalmente um pessoal que mora ali do outro lado da rua, tá vendo? Atrás do senhor à direita, ali onde está escrito “Vila do Interesse Prático”. Rapaziada cabeça dura. Uma gangue, na verdade.  Mas como dizia, depois de ralar um tempo achei que tinha conseguido tirar a Idéia Pura, fiquei louco de alegria e saí correndo para mostrar ao chefe da preparação: Mestre Platão, ele viu a idéia e disse que não servia, pois era uma falsa idéia.  Me deu a maior bronca, disse que eu não estava me esforçando o suficiente, e se continuasse assim eu seria mandado para o mundo sensível e nunca mais faria o caminho de volta. Cheguei até a passar mal, imagine só: eu consigo ser aceito na obra como servente, tento fazer o meu trabalho, e, assim de repente, sou jogado no mundo sensível . O que tem de tão ruim o mundo sensível? Digamos que o mundo sensível não é tão ruim, ele é O mal.
               
Corre um papo aqui na obra que um servente mostrou uma falsa idéia pura, (que não foi aceita, é claro), mas o servente insistiu tanto que foi despachado para ao mundo sensível. Pois veja o senhor o que ele fez, pegou a falsa idéia pura, pintou de outra cor e saí espalhando por aí com o nome de RELIGIÃO. O senhor não imagina o problema que isto causou. As pessoas que compraram a idéia, agora estão ali na porta e querem vender a cópia prá gente. Veja só!!! Eles dizem que nós somos otários trabalhando aqui tentando tirar a nossa própria Idéia Pura quando eles, os RELIGIOSOS, podem nos vender, (baratinho segundo eles), uma idéia pura pronta e acabada, e ainda oferecem um monte de brindes: RITUAIS, SALVAÇÃO, VIDA ETERNA e otras cositas más...Para escapar disto, voltei ao trabalho para tirar a Idéia Pura. Trabalhei duro até que um dia, de dentro do Senso Comum retirei um fragmento da Idéia Pura, não era lá essas coisas, mas era uma Idéia, era Pura e era MINHA. Foi a partir daí que passei a trabalhar na construção do muro sob a supervisão de Mestre Deleuze, o muro ainda está no começo, mas a gente vai levando, como o senhor pode ver temos outros trabalhando nele. Para o senhor, que se preocupa tanto com o tempo, talvez interesse saber que é provável que eu não viva o suficiente para terminar a minha parte neste muro.
               
Agora o senhor tem certeza? Só mesmo um louco trabalharia a vida toda em uma obra da qual não verá nunca o final e acima de tudo, sem receber nada em troca? Isto é certo, pois mesmo que eu termine o muro em tempo e chegue a trabalhar na entrada principal, jamais verei as fundações da catedral serem lançadas, jamais verei suas torres arremetendo para os céus, (de onde um dia fomos expulsos, lembra?), jamais assistirei a grande festa inaugural que terá, já me disseram, música do Mestre Beethoven, o senhor conhece, aquele que ficou surdo porque Deus cantou no ouvido dele. A inauguração da Catedral dos Pinheirais será uma beleza, pena que eu não estarei aqui para ver a festa. Mas isto não vem ao caso.
                Ah! Os pinheiros... São aqueles que o senhor está vendo acolá, alguns tem nome, percebe? Aquele mais alto é Sócrates, aquele outro Aristóteles, o outro Kant, este aqui é Nietzsche, este mais ao lado é Espinosa, os dois ali são Hegel e Sartre. São muitos e mais outros estão nascendo. A catedral será erguida bem aqui no centro e os pinheiros servirão de sombra.
            Imagine só: a Catedral dos Pinheirais finalmente pronta, a sombra dos pinheirais cobrindo tudo, vitrais espalhando cores por toda a parte, lá dentro a música absoluta de Mestre Ludwig aflora em uma beleza que está fora e acima deste planeta. Uma voz, que está em algum mundo, mas não neste mundo, canta: “todos os homens serão irmãos...” conhece o verso? é de Mestre Schiller. Mas o que é isto? o senhor está chorando? O que foi que houve? Ah!, Também quer ajudar a construir a catedral? Mesmo sabendo que não vai receber nada em troca? Mesmo sabendo que não verá nunca a catedral pronta? Mesmo sabendo que estará a serviço de forças que o senhor não conhece e menos ainda controla?Verei o que posso fazer... é claro que o senhor terá de começar como servente, trabalhando com Mestre Platão. Ele não está agora, mas assim que ele chegar, pode deixar que eu dou um toque, o senhor vai gostar de trabalhar com ele, é um cara duro mas no fundo é um sujeito muito bom.
                Enquanto ele não chega, o senhor pode me passar esse tijolo aí?