Terça, Fevereiro 09, 2010
   
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Dois perdidos e um guia.

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SOBRE DOIS PERDIDOS E UM GUIA

 B. J. Franco Fonseca



 Bom dia, meu senhor, eu e o meu amigo aqui estamos procurando uma tal de verdade e acho que estamos perdidos, o endereço? Está aqui neste papel. Está escrito que a verdade fica na praça da conformidade bem na esquina da rua do objeto com a rua do conhecimento.

Onde eu peguei este papel? Fui numa casa com um enorme letreiro que dizia: tradição filosófica. 

Como? Eles me deram uma informação errada? De vez em quando eles fazem isso? Quer dizer que a verdade já esteve neste endereço, mas se mudou faz tempo? Mas se o endereço não é este, onde é que eu posso encontrar a verdade? Onde é que ela está morando agora? O senhor pode nos indicar a direção, pelo menos? Vai fazer melhor, vai nos guiar durante uma parte do caminho? Isto é muito bom. Vamos precisar do quê? Uma nova disposição de pensamento? Isto nós temos de sobra, vamos indo então. O senhor poderia ir um pouco mais devagar? Não é por minha causa não, mas é que o meu amigo ficou em algum lugar ali atrás. Precisamos manter este ritmo? Tudo bem, mas segura as pontas aí que eu vou ver que diabo aconteceu com o meu amigo que até agora não apareceu... Só um minutinho que eu já volto.

Voltei! Infelizmente vamos ter que seguir sem o meu amigo, ele está preso lá atrás, mas pode deixar que eu marquei bem o lugar onde ele ficou, é perto de um muro onde está escrito preconceitos obstinados. Como disse? Muita gente boa também já ficou por lá? Lamento, mas vamos em frente, depois eu mando ajuda.

O senhor tem certeza que o caminho é este mesmo? O quê? O caminho muda sempre, de acordo com o comportamento do caminhante? Não é por nada não, mas isto aqui está parecendo mais um labirinto do que um caminho. Acho que o caminho acaba naquela parede ali na frente, não parece ter nenhuma passagem. Estou vendo uma abertura, e o que é aquilo no seio da abertura? É o ente, diz o senhor, que estranho, quando eu me aproximo dele não consigo focalizar direito.

Como disse? É preciso deixar-ser, tudo bem, então vou ignorar o ente...

O quê? Não devo fazer isso? O que devo fazer então? Se deixar-ser não é ignorar o ente então o que significa? Deixar-ser é entregar-se ao ente. Já que é assim vou escolher o ente para ocupar-me dele, bem como protegê-lo e planejá-lo. Também não é isto? Mas afinal de contas o que é que eu devo fazer? Entregar-me ao aberto e a sua abertura, é o que o senhor diz, e como devo entender isso, devo entender como desvelamento? Mas que diabo é isso de desvelamento?

Espere um momento! Bem, só não sei se isso está ajudando, mas, percebo que quando eu recuo um pouco, consigo ver melhor no seio da abertura, estou vendo que o ente representa estar coberto de véus. Pelo visto, o tal desvelamento consiste em retirar os véus que cobrem o ente. Mas como isto acontece? Pelo que o senhor está me dizendo, com o deixar-ser, o ente, (ele mesmo), irá se desvelando na medida em que eu me exponho ao ente e transfiro para o aberto todo o meu comportamento. Certo, mas, o que é aquela luz que aos poucos vai clareando os véus que cobrem o ente? 

Aquela é que a tal da essência da verdade? Então é isso: basta deixar-ser o ente e ele se desvelará no que é e como é. E é preciso estar livre no seio do aberto para que tal aconteça. Deixa ver se eu entendi: deixar-ser é a liberdade e é a luz da essência da verdade que ilumina, ou melhor, que nos permite a exposição ao ente em todo o seu desvelamento. Daqui para frente devo seguir sozinho, pois o senhor volta daqui? A propósito, o senhor mora aqui perto? Mora na Floresta Negra? Não, não sei onde fica. De qualquer forma, muito agradecido pela ajuda, “seu”... Como é mesmo seu nome? Ah! Tem um cartão, muito obrigado “seu”... Heidegger, Martin Heidegger, muito obrigado mesmo, foi um prazer conhecê-lo. Pode deixar, daqui em diante é por minha conta.

 

DEZ INFORMAÇÕES TOTALMENTE DISPENSÁVEIS

 

 

<!--[if !supportLists]-->1. <!--[endif]-->A palavra aqui necessária para expressar o deixar-ser do ente<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> não visa, entretanto, nem a uma omissão nem a uma indiferença, mas o contrário delas. (não é isto que você esta pensando é o seu contrário)

<!--[if !supportLists]-->2. <!--[endif]-->Deixar-ser significa entregar-se ao ente. (este é o significado)

<!--[if !supportLists]-->3. <!--[endif]-->Isto, todavia, não deve ser compreendido apenas como simples ocupação, proteção, cuidado ou planejamento de cada ente que se encontra ou que se procurou. (mas não é só este o significado, é mais do que isto)

<!--[if !supportLists]-->4. <!--[endif]-->Deixar-ser o ente - a saber, como ente que dele é - significa entregar-se ao aberto e à sua abertura, na qual todo ente entra e permanece, e que cada ente traz, por assim dizer, consigo. (este é o significado)

<!--[if !supportLists]-->5. <!--[endif]-->Este aberto foi concebido pelo pensamento ocidental, desde o seu começo, como tá aléthea, o desvelado. (como era na origem)

<!--[if !supportLists]-->6. <!--[endif]-->Se traduzirmos a palavra alétheia por “desvelamento”, em lugar de “verdade”, esta tradução não é somente mais “literal”, mas compreende a indicação de repensar mais originalmente a noção corrente de verdade como conformidade da enunciação<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->, no sentido, ainda incompreendido, do caráter de ser desvelado e do desvelamento do ente. (mas não é só este o significado, é bem mais do que isto)

<!--[if !supportLists]-->7. <!--[endif]-->O entregar-se ao caráter de ser desvelado não quer dizer perder-se nele, mas se desdobrar num recuo diante do ente, a fim de que este se manifeste naquilo que é e como é, de tal maneira que a adequação representativa dele receba medida. (não é isto que você está pensando é outra coisa).

<!--[if !supportLists]-->8. <!--[endif]-->Semelhante deixar-ser significa que nós nos expomos ao ente enquanto tal e que transferimos para o aberto todo o nosso comportamento. (este é o significado)

<!--[if !supportLists]-->9. <!--[endif]-->O deixar-ser, isto é, a liberdade, é em si mesmo, a exposição ao ente. (este é o significado)

<!--[if !supportLists]-->10.<!--[endif]-->A essência da liberdade, entrevista á luz da essência da verdade, aparece como exposição ao ente enquanto ele tem o caráter de desvelado. (este é o significado)

<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->

<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Passe o cacófato, já é tradicional entre os não-heideggerianos.

<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Isto é da tradição: “dizer daquilo que é, que é, isto é verdadeiro”.