Os guerreiros amorosos
Última atualização em Seg, 01 de Outubro de 2007 15:11 Seg, 01 de Outubro de 2007 15:08
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Os guerreiros amorosos (esboço para uma futura superação nietzschiana) Por B. J. Franco Fonseca |
Vai como intróito
Das muitas polêmicas deflagradas pela obra do filho de Karl Ludwig Nietzsche, e irmão de Elizabeth Foster, salientemos apenas uma: a superação do homem pelo além-do-homem (1). É possível que a origem esteja no primevo ideal filosófico de reconstruir de forma perfeita, um mundo reconhecidamente imperfeito.
A primeira notícia filosófica da receita para a construção de uma sociedade perfeita aparece no diálogo “A república” de Platão. Obra sobejamente conhecida, nela o filósofo dos ombros largos, molda o seu mundo perfeito, com seus habitantes perfeitos e seu governante perfeito: o rei-filósofo. Mas ao estabelecermos um plano de perfeição compulsória para moldar os homens perfeitos, um dos efeitos colaterais será a eliminação dos imperfeitos, não é mesmo?
Desta forma: “É preciso, (...), que os homens superiores se encontrem com as mulheres superiores (...), e inversamente, os inferiores com as inferiores, e que se crie descendência daqueles, e a destes não, (...)”. (2)
A partir de melhores cidadãos, uma sociedade melhor e como escopo um mundo melhor. Mas a visão religiosa descarta por impossível tal acontecimento no plano da matéria, e cria e localiza sua sociedade perfeita no além-mundo, pois, que coisa é o paraíso, senão a reunião de seres perfeitos em um espaço e um tempo também perfeitos?
Alguém nos acena de quando em vez com a possibilidade deste paraíso, seja na terra - (Bacon, “Nova Atlântida”; Campanella, “A cidade do sol”; Thoreau em “Walden”; Skinner, Walden II) - ou fora dela (“A Cidade de Deus”, Agostinho). (3)
Reconstruir o homem (imperfeito) segundo um modelo (perfeito), este será o (único) ponto a ligar a imanência e a transcendência. Enquanto Platão constrói a Republica, segundo o modelo espartano, em Agostinho os eleitos constroem a cidade de Deus segundo o modelo divino. Tanto o além-mundo quanto o plano da realidade persistem na idéia de refazer o homem e o mundo físico também.
Nietzsche e o além-do-homem
O tema do além-do-homem é um dos mais estudados e também um dos mais confundidos pelo senso comum na obra do irmão de Elisabeth Asper. Registre-se o fato dela mesma ter sido a responsável pela confusa aproximação entre o conceito de além-do-homem (aqui tomado como super-homem) e o nazismo. A proposta de Nietzsche incluía além da crítica radical da moral de rebanho do cristianismo, também a crítica do anti-semitismo, motivo da sua desavença com Wagner.
Desta forma, imaginar uma identificação entre o conceito de super-homem e o nazismo é desconhecer a oposição de Nietzsche ao arianismo e ao nacionalismo, cernes do nazismo. Melhor fariam os que assim pensam se pesquisassem os motivos pelos quais Adolf Hitler nunca foi excomungado e o seu “Mein Kampf” nunca constou do Index librorum prohibitorum. (4) Entretanto, constavam da temida relação dos livros proibidos pela Igreja Católica, nomes como: Descartes, Pascal, Kant e até Richard Simon, um escritor cuja “História Crítica do Velho Testamento” inaugurou o estudo crítico dos textos sagrados.
De volta ao Nietzsche, o que nos interessa é o reconhecimento do caráter transitório do homem entre o início (o animal) e o seu objetivo (o além-do-homem).
Este processo envolve a negação pelo homem (a ponte/corda estendida entre o animal e o além-do-homem) de todas as suas crenças e ídolos e principalmente a sombra desses ídolos, pois, para Nietzsche a sombra ainda perdura por um longo tempo, mesmo quando o ídolo que a projetava foi destruído a golpes de martelo.
O transpor a ponte/corda é um ato tão perigoso quanto único, arriscar-se a tentar faze-lo sem o devido cuidado é flertar com o fracasso da morte. Alguns tentaram um salto para cortar etapas e perderam o alvo e a vida. E tendo fracassado no objetivo de alcançar o além-do-homem, tornam-se “companheiros mortos e cadáveres, que carrego comigo para onde quero ir”. (5)
Superação do além do homem - uma proposta
Proponho aqui como esboço apenas, uma superação do além-do-homem pelos guerreiros amorosos, aqui entendidos como atletas dos afetos, seu papel seria o de distribuir os bons e perenes sentimentos, menos pelas palavras e mais pelos exemplos. Historicamente buscaremos apoio nas características das elites atuais e do passado: a agressividade dos templários, a determinação dos jesuítas, o bushido dos samurais, o saber tecnológico dos hackers, o inconformismo dos rebeldes, a estética dos poetas, o bom gosto dos neo-hedonistas etc. Antecedidos da purificação interior e exterior. (6)
Mental e física.
A fusão do átomo e a concisão do hai-kai.
A construção do guerreiro amoroso acontecerá segundo um modelo possível, que não será nem Cristo nem o anjo; nem o espartano nem o ariano.
Nem Buda, nem Alá.
Apenas o filósofo eclético, aquele que capta o melhor de cada um, aquele que segue o paradigma inicialmente contingente (é aquilo que não é, mas pode ser), evita o impossível (é aquilo que não é e não pode ser) e finalmente realiza o necessário: (é aquilo que é e tem de ser).
Através da reconstrução de si, por meio da superação das limitações do corpo e utilizando a liberação dos afetos positivos, poderemos atingir primeiro e superar depois o além-do-homem nietzschiano. Atuando no campo do aprender, na busca do conhecimento pelas causas, na construção do palácio da memória (7), teremos o alcance e o sentido da nossa verdadeira posição.
Afinal, porque abrimos mão dos nossos poderes e qualidades? O que fez com que abandonássemos, e o que é pior, sem luta, as nossas divinas e humanas atribuições? E deixamos que bibliotecas ardam? E deixamos que pessoas queimem? E deixamos que crianças sejam arrastadas até a morte? E deixamos que nossos jovens não tenham futuro? Isto não era para ter acontecido, não conosco. (8)
Mas infelizmente aconteceu e agora precisamos retomar o que é nosso de direito e de fato, cada um deverá ser um guerreiro amoroso sempre em luta e sempre em dois campos diferentes, mas ambos cruéis. Vencer a luta interior, derrotando os inimigos da psiche, o medo e sua irmã gêmea: a ignorância. Vencer a luta exterior contra o inimigo também duplo: a alienação e a mediocridade. Para dois campos diferentes uma arma comum: o conhecimento, pois só o conhecimento liberta.
Em nenhum tempo da história da humanidade tivemos tanto conhecimento disponível. Certamente o que une qualidade e quantidade é apenas uma rima de péssimo estilo, mas ainda assim basta um pequeno esforço para ampliarmos os nossos horizontes pessoais.
E melhorando a nós mesmos, estamos melhorando a sociedade da qual fazemos parte. E todos nós seremos melhores pessoas em um mundo melhor.
Ontem aristói, guerreiros amorosos hoje, mas sempre seres humanos.
(fim do esboço)
Precisar, não precisava, mas...
(1) Meus parcos conhecimentos da língua de Goethe, me levaram a seguir a tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, evitando o “super-homem”, tão identificado com o ícone pop e alter-ego de Clark Josehp Kent.
(2) Não, não é “Mein Kampf” do Hitler, é A República de Platão (Livro V, 459e).
(3) Creio que falta uma genealogia das sociedades utópicas, é recorrente a idéia filosófica de reconstruir (melhor) as coisas e as pessoas, seja no particular, (consciência de si), seja no geral com conotações escatológicas, (fim do mundo/novo mundo). Fica a sugestão.
(4) Para a atração mútua entre a Igreja Católica e Hitler, vejam o excelente “Tratado de Ateologia” (Onfray, 2007). Recentemente o History Channel exibiu em documentário a rede montada pelo Vaticano que permitiu a fuga de tantos membros da cúpula nazista. Mais uma na conta da Igreja...
(5) Obviamente (re)ler “Assim falava Zaratustra”, “Gaia Ciência”, etc. Para os neófitos, recomendo os comentários da Chauí, encontrados na 2ª. ed. de “Os pensadores”.
(6) Outro tema à procura de um pesquisador (sério), a academia insiste em ignorar o saber dito místico. Não tivemos ainda um “Scholar” que fizesse a crítica da filosofia cinzenta. Consta que Espinosa fez algo (mínimo?) com a cabala judaica e a atirou no poço sem fundo da superstição.
(7) Isto muito me agrada: a memória, a mnemotécnica. O palácio da memória é uma técnica para guardar/recuperar informações. Nela um palácio imaginário é preenchido com objetos associados às nossas lembranças. Para lembrar de algo basta lembrar do objeto. Quanto maior o palácio da memória e a quantidade de objetos nele guardados, maior será nossa habilidade mnemônica. Detalhes nas “Confissões” do Bispo de Hipona. Ver também: “O palácio da memória de Mateus Ricci” e na literatura vulgar ver: “Hannibal”, de Harold Harris. O Dr. Hannibal Lecter, (Hannibal, the cannibal), eternizado na telona por Antonhy Hopkins, utiliza esta técnica. Esqueçam o filme (é muito ruim) e mesmo a referência ao palácio da memória só aparece no livro.
(8) Para um entendimento mais objetivo vejam o conceito de “banalização do mal” em “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal da Hannah Arendt.”



